Erva Daninha Iniciativa Anti-civilização



Domingo, Dezembro 31, 2006 :::


O caminho adiante
por John Zerzan

Sem uma nova estrutura, ou uma visão diferente da dos fracassados e limitados esforços do passado, não haverá possibilidade de desafiar o todo-envolvente ecocídio, desumanização, e a destruição que são tão desenfreados atualmente. Todos sabem que a vela esta oscilando, que a crise generalizada continua a se espalhar e se aprofundar. Meus parentes conservadores sabem que tudo está desmoronando. Esta condição assustadora e sem precedentes deve ser desafiada em sua totalidade e em suas raízes. Existe cada vez menos interesse em abordagens parciais, e por uma boa razão: abordagens parciais apenas garantem que as coisas continuem cada vez pior.

Tem ocorrido para um número crescente de pessoas, em vários lugares, que olhar para uma saída necessariamente envolve atacar a exata natureza da sociedade. Não somente o capitalismo, mas a sociedade de massas e sua forma cada vez mais tecnificada, com suas raízes na civilização. Certamente algumas pessoas tem tomado agora uma retórica anti-civilização, ao mesmo tempo que evitam sua essência. Recentemente eu li em uma mensagem na internet que começava com "eu sou anti-civilização, mas ..." Este indivíduo listou coisas que ele/ela condenava, porém, nenhuma dessas coisas estavam definindo os aspectos da civilização (domesticação, cidades). Com este tipo de manobra o jargão muda, e nada mais. Por exemplo, alguém poderia continuar aceitando o marxismo , com todas as suas limitações, e ainda sim, por alguma razão, adotar o rótulo anti-civilização. Tal mal uso de termos é comum; por exemplo, Noam Chomsky - um mero progressista - é referido como um anarquista.

Obviamente é o marxismo, em geral, que é o continuo refúgio para aqueles que não podem encarar a realidade, e ainda alegam que se opõem radicalmente a essa realidade. O marxismo, que não tem sido uma visão inspiradora desde a I Guerra Mundial. O Marxismo, que proporciona um conforto caso a visão do mundo seja limitada - conforto se o Século XIX for o contexto (e mesmo assim, certamente inadequado).

Uma quantidade de potencial libertador seria incorporado no final da esquerda, isto é muito claro. Embora tão amplamente, senão universalmente desacreditada, a esquerda trabalha para manter um horizonte que é criticamente resumido. A visão da esquerda é limitada por um par de cegueiras: a recusa em questionar a produção em massa e a tecnofilia. Quando aqueles que se identificam como pós-esquerdistas provam isto tomando elementos cardinais como as "teses", o termo começará a ter substância.

Generalidades, como a retórica, servem principalmente para mascarar uma falha de conteúdo. Heidegger falou infinitamente da autenticidade e foi um nazista; Sartre focou na liberdade e foi um estalinista. Se a filosofia é a reflexão de um modo geral, a política comete o mesmo erro, e muitas vezes com os piores motivos. Só a especificação e o concreto transmitem um real significado, e jogam com as conseqüências das intenções e responsabilidades pessoais. Uma recusa em ser especifico pode ser tida como a marca do político. "Anticivilização" e/ou "Pós-esquerda" deve ser mais do que rótulos, jargões vazios.

Se uma tarefa prática é a rasura do que resta da esquerda, um igualmente passo é mais longe, exploração e questionamento sem limites. Precisamos problematizar, não assumir ou tomar por certo, cada componente e instituição da marcha mortal da civilização.

Superar obstáculos deve ser acompanhado por um aprimoramento na busca de modos para evoluir. Isto é, as alternativas, os meios para deixar a embarcação decadente. O espectro de outras maneiras de viver deve ser absolutamente essencial, caso, se expressões como "autonomia" e "re-conexão com a Terra" sejam carregar a importância que irá brevemente ser colocada sobre nós. Habilidades que não assumem a continuação da decadente e infantilizadora modernidade, mas ao contrario, são habilidades necessárias para abandonar isto. Habilidades ligadas à terra, paisagens comestíveis, tantas maneiras de aprender e explorar. Habilidades que maximizam a plenitude e anti-mediação individual, e que são chaves para compartilhar a visão anticivilização. Um convite em termos reais, sem o qual apenas palavras acontecem. Mesmo se os passageiros percebem que o jato esta inclinando-se diretamente ao chão, eles ainda não estão certos de pular pela janela.

O reino do espiritual chama, porque assim deve ser - ou deveria ser - com elementos básicos. Nossa vida-mundo desincorporado tem perdido lugar na existência. Já não nos olhamos como parte da teia e dos ciclos da natureza. A perda de uma relação direta com o mundo tem bloqueado um antigo entendimento universal de nossa singularidade com o mundo natural. Os princípios da ligação e da simplicidade são o coração do conhecimento indígena: intimidade tradicional com a terra como uma imanente base da espiritualidade. Este entendimento é uma essencial e insubstituível fundação da saúde e do significativo. Esta linha de vida é inestimável. Seu eco é ouvido em comentários de que a anarquia verde esta na base de um movimento espiritual, o qual deve colocar a mudança mundial em repercussão. Isto é algo muito atraente para eles - e misterioso para mim. Eu tenho que dizer que esta esfera é intrigante, e aberta para mim. Mas parece bom sentir que algo esta acontecendo e admitir isso.

Producionismo ou futuro primitivo, duas materialidades. Um provocado pela extinção do espírito, o outro por abraçar o espírito e sua realidade baseada na Terra. O abandono voluntário do modo de vida industrial não é auto-renuncia, mas um retorno de cura. Voltando deste presente estado e direção do mundo, vamos procurar por inspiração daqueles que tem continuado a viver espiritualmente com a natureza. Seus exemplos mostram o que precisamos fazer do nosso modo para o que ainda nos espera, ao nosso redor.

Táticas podem ter muitas fontes úteis. Supremo é a recusa da total desordem colapsante e a resistência contra todos aqueles que trabalham para nos manter emaranhados nisto.

- publicado na Green anarchy #23




Comments:

::: Erva Daninha - ervadaninha@riseup.net -3:22 PM



Terça-feira, Dezembro 12, 2006 :::


Passe-livre para a reprodução do cotidiano?

-comentários para um redirecionamento de energia-


Passe livre para a servidão voluntária?


Nos últimos anos em todo o Brasil, com o apoio do CMI (centro de mídia independente), tem se formado e se manifestado um movimento pelo passe livre ou por tarifas mais acessíveis para estudantes.
O MPL, parece ser um movimento de inspiração anti-burocrática, pelo menos no que diz respeito em adotar o principio da horizontalidade como forma de tomar decisões e estratégias. Isso serviu (e serve) de repelente contra os mórbidos burocratas de plantão e os decadentes parasitas trotskistas (os "estalinistas fora do poder") de tentarem uma cooptação. Eles tentaram ou tentam em vão absorver o movimento.

Bandeiras negras e vermelhas são exibidas em suas passeatas, concentrações e manifestações. É explicita a participação honesta e saudável de diversos indivíduos de perspectivas libertárias.
O marasmo, e de certa forma o medo apático e conformista de muitos foram eliminados com toda a movimentação, concentração e algum nível de enfrentamento policial. Um exercício de não-conformismo começou a ser feito.
Porém é um exercício direcionado ao reformismo, pois o passe-livre e as tarifas mais baratas são para que?
Antes de qualquer coisa o passe-livre serve inevitavelmente para a manutenção desta sociedade. Serve para a manutenção da sociedade do trabalho e consumo e do colapso ambiental. É para isso que serve em primeiro lugar.
Não se pode negar que lutar pelo passe livre ou por tarifas mais acessíveis é lutar para garantir o "direito" de ir e vir dos escravos do capital, dos servos obedientes do estado, e de indivíduos idiotizados do consumo de bugigangas e imagens. Tudo isso às custas da destruição ambiental e da estupidificação da espécie humana.
Existem dois motivos básicos para o uso do transporte público (com tarifa ou sem tarifa): ir e vir para o trabalho e para a escola, o que são justamente duas das principais maneiras de garantir que toda essa loucura continue (outra maneira é a manutenção dos exércitos e policias).

Antes de continuar, gostaria de salientar que garantir o direito de ir e vir através de um meio de transporte que é fruto e depende da destruição ambiental (o que inclui práticas que vão desde a extração de matéria prima, resíduos da fabricação de veículos, construção, manutenção, e ampliação de ruas, avenidas, estradas e estacionamentos, extração de petróleo, emissões diárias de toneladas de gases tóxicos, poluição sonora, aquecimento global, etc.) e causa conseqüências sociais como a guerra do Iraque e a expulsão de comunidades tradicionais baseadas na terra de suas próprias terras e sua conseqüente destruição cultural.
Garantir ou exigir o direito de ir e vir por estes meios é ser conivente, é uma estupidez.

Voltando aos dois modos básicos de continuar com a loucura atual:

- Algumas palavras sobre e contra o trabalho
Bob Black em "A Abolição do Trabalho" afirma que "estamos tão próximos do mundo do trabalho que não conseguimos ver o que ele faz conosco".
O trabalho nos empobrece, arruína nossos espíritos, nos enfraquece como indivíduos capazes de desenvolver as mais diversas habilidades e de enfrentar e experimentar as mais diversas situações.
Ao contrário do que a mídia, o estado, os partidos e sindicatos, a esquerda e a direita, o clero e a escola afirmam, o trabalho não é sinônimo de atividade humana, trabalho é sinônimo de alienação humana.
Vamos encarar a realidade, ninguém trabalha porque quer, somos induzidos ao trabalho porque o Estado e o capital trabalham juntos para garantir a sobrevivência às custas da humanidade e da Terra, e para isso bombardeiam nossas mentes 24 horas por dia com a MENTIRA de que EXISTE SOMENTE ESTA MANEIRA DE VIVER (TRABALHAR E PAGAR CONTAS), NÃO PODEMOS VIVER DE OUTRA MANEIRA. FORA DISSO É ILUSÃO, LOUCURA!
E quando acreditamos nessa mentira, acabamos com as nossas vidas trabalhando em lugares que não gostamos, fazendo coisas que na realidade não nos interessam, acabando com a nossa vida trabalhando seja para o Estado ou para os capitalistas, ambos aqueles que parasitam a comunidade, eliminando a autonomia e a solidariedade natural. Isso mesmo caro leitor, quando acordamos cedo com o barulho do despertador (a primeira humilhação do dia), interrompendo nossos sonos, nos tirando da cama, e meio dormindo e meio acordado, ou melhor, completamente já violentados vamos ao trabalho, entregamos voluntariamente nossos pescoços para nossos opressores. Em troca de bugigangas que não precisamos, ou mesmo em troca de recursos básicos que qualquer ser vivo obtém gratuitamente: moradia, água e alimento.
Que humilhação pedir passe-livre para a servidão voluntária!
Em contraste a esta sociedade baseada na domesticação, temos a sociedade de bandos e tribos de coletores-caçadores, uma "sociedade essencialmente igualitária" onde "os homens são senhores de sua atividade" segundo Pierre Clastres; um modo de vida que a humanidade adotou durante 99% de sua existência, onde gastam até 3 horas por dia em passeios(!) em busca de alimento, matéria prima, etc. Satisfazer suas necessidades não é uma atividade que se separa de outros aspectos da vida. Pessoas do mundo do trabalho como nós, ao olharmos o "trabalho" de 3 horas dos coletores-caçadores dificilmente consideraríamos trabalho, diríamos que estão passeando, brincando, se divertindo, aprendendo...
Isso é mais do que uma inspiração para abolirmos toda esta loucura chamada civilização. É uma dica preciosa para escaparmos deste ciclo de trabalho, consumo, idiotização e violência ambiental. Nos mostram que através de uma vida simples, técnicas e conhecimentos tradicionais, o convívio com aqueles que temos afinidade e um profundo e íntimo contato com a Terra é o caminho e a condição para construirmos uma vida com autonomia, conhecimento, prazer e sensualidade.
Ou queremos continuar com toda a humilhação da espécie humana e a destruição da Terra a troco de comida enlatada em prateleiras de supermercados?

- Algumas palavras sobre e contra a escola (do maternal à universidade)
A escola é o espaço físico onde os indivíduos não só são preparados para o trabalho, são também preparados para aceitar o trabalho e ver o mundo de acordo com o Estado e o capital. Nestes centros de domesticação a necessidade e a vontade natural dos indivíduos em querer aprender, investigar e a compartilhar conhecimentos é alienada, violentada, controlada, reprimida, governada e manipulada. Não é de se estranhar que governos atualmente obriguem os pais a colocarem seus filhos em escolas. Onde mais fariam as pessoas aprenderem desde cedo a obedecer, cumprir tarefas e prazos, aceitar a hierarquia e a autoridade? A publicidade não dá conta disso tudo...
Acorde cedo, esteja no horário certo, vista seu uniforme, aguarde o sinal, memorize seu número de chamada, entregue o trabalho, se comporte para não acabar na diretoria. Professora, posso ir ao banheiro? Nossa infância e juventude e a de nossos filhos são arruinados em lugares como este.

Mesmo uma "escola livre" a situação ainda está sob controle ainda é um lugar com horários e datas para separarem o aprender e ensinar dos outros aspectos e momentos da vida. A "escola livre" ainda colabora com a fragmentação da vida. O que queremos é uma vida íntegra e fluída e não fragmentada.

E esta é a especialidade da universidade (com as raras exceções de indivíduos que mantêm seus espíritos críticos e investigativos): é o centro da fragmentação, da doutrinação, da especialização, do controle da informação e do ponto de vista único. Para que serviria a distinção "ensino superior" se não para criar uma hierarquia do saber e daqueles que obtém conhecimento? Ora, conhecimento é conhecimento e ele não reconhece hierarquias.
O ensino superior serve principalmente para um currículo superior, consequentemente um contrato superior na hierarquia das funções capitalistas ou cargos estatais.
Tudo isso a custo de um rigoroso esquema de segregação, exclusão e humilhação: o vestibular. O vestibular é onde humilhamos nossa vontade de aprender. Onde damos nossa cara para bater e cuspir a troco de uma vaga no centro de domesticação superior.
Finalizando, a escola não é nada mais do que fábricas de "indivíduos" com opiniões padronizadas (e não idéias). A escola é onde a diferença, o ritmo, as habilidades, as aspirações e interesses de cada indivíduo são nivelados de acordo com o Estado, o mercado ou com as hierarquias intelectuais locais. A escola é a fabrica onde se produz novos e capacitados reprodutores do sistema.
É isso que queremos? Estamos saindo às ruas para exigir a continuação de tudo isso?
Nosso espírito livre e criativo merece mais que isso...

- Redirecionando a energia
Sim vamos sair às ruas, pois estas ruas, escolas e fábricas estão causando uma miséria em nossos espíritos tão grande que dificilmente conseguimos visualizar. Escravizam nossos corpos, destróem nossas mentes e drenam a vida de nosso planeta.
E o sistema não se importa se você é alguém disposto a enfrentar a polícia pelo direito ao transporte (o que é um grande favor para melhorar a imagem do Estado: "transporte para todos, o Estado funciona"), o sistema não se importa se você é um anarquista, um ambientalista radical ou o que seja, desde que você reproduza o dia-a-dia planejado por eles, perpetuando os sonhos de domínio deles, para eles tudo bem. Eles dizem: "Vá em frente com seu movimento pelo passe livre, vá em frente com seu coletivo anarquista, com seu ambientalismo, vá em frente, mostre que somos tolerantes, democráticos, que aceitamos diferenças."
O sistema não tem nada a temer, a não ser quando rompemos com ele, passamos a construir autonomia e começamos a atacar suas estruturas, pois elas têm endereço certo.
Seja uma pessoa, duas, cem ou mais de mil devemos ir às ruas não só um dia, mas todos os dias necessários para por um fim a este pesadelo.
Sair às ruas não mais para ir à escola ou para o trabalho, sair às ruas para destruir as ruas (pois como já foi dito debaixo das ruas está a praia!)
Sairemos às ruas para destruir os ônibus, as escolas, as fábricas e escritórios e (roubando mais ou menos uma frase do Zerzan) "dançarmos em suas ruínas".

Gorroverde - gorroverde@riseup.net




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::: Erva Daninha - ervadaninha@riseup.net -11:17 PM






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