Sexta-feira, Junho 26, 2009 :::
Amor
por John Zerzan
A vertigem da Tecno-modernidade é um invasiva sensação de insignificancia, o que
tambem é certamente registrado no nivel do que é sentido diretamente, e não
apenas pensado.
Já em 1984 Frederic Jameson se referiu a um "declinio do afeto" na sociedade
pós-moderna, uma paralisia ou afastamento emocional. Existe uma dissolução ou
nivelamente tomando caminho para dentro do terreno mais vital do ser humano.
Nosso estado afetivo é a exata textura e timbre de nossas vidas . Nada é mais
imediato para nós do que nossos sentimentos. Isto é fundamental, nos da a
"sensação" que temos do mundo, é o que atualmente nos conecta com a realidade.
Emoções são artefatos culturais, mais ainda do que idéias. Nesta direção Lucien
Febvre (1938, 1941) convocou uma história das sensibilidades, e Anne
Vincent-Buffault (1986) contribuiu com Histoire des Larmes (Historia das Lagrimas).
Estão nossas paixões no centro de nossa existência? Cada cultura possui seu
proprio ambiente emocional, cada luta politica é uma luta afetiva. A luta contra o
percurso da civilização certamente esta inclusa. As coisas são sentidas antes de
serem pensadas ou acreditadas, portanto, a hegemonia - ou a sua eliminação - tem
seu inicio no sentimento.
O primeiro livro de Adam Smith, The Theory of Moral Sentiments (1759), viu nas
emoções a linha que tecia a união da fabrica social. nada disso é uma descoberta
extraordinaria, porém muitas vezes agimos como se o campo do afeto não fosse de
relevância real.
A razão e a reflexão são relativamente expressões refinadas das próprias paixões.
Antonio Demasio fornece a noção de que a "consciencia começa como um
sentimento, um tipo especial de sentimento para ser claro, um sentimento de saber"
Sua sugestão reacende a divisão mente-corpo, tão essencial para a vida na
sociedade de massas.Tantas divisões debilitantes: Humanos da natureza, trabalho
do divertimento, a divisão entre as pessoas. Tambem somos afastados das
sensações fisicas, da experiencia direta.
Sentimentos são personificados, mas o que acontece ao contexto desta
personificação? O isolamento cresce a largos passos e os laços sociais
permanecem frágeis. Amizades são transferidas para "amizades" de rede sociais
de internet, e as casas onde moram apenas uma pessoa são uma porcentagem
cada vez maior de todas as casas. Onde é o lar? O assunto está disperso e o
social não existe mais, de acordo com Baudrillard.
Sentimos tudo isso, mesmo que a superficialidade da cultura dominante trabalhe
para deformar e superficializar nossas emoções centrais a sua propria imagem.
Este centro é seu próprio encorporamento, provavelmente o mais forte reduto da
resistência. Por outro lado, numa amarga ironia, poderiamos nao estar em tamanha
condição de não-saúde. poderiamos nao estar tao aflitivamente de alertas a
destruição de corações deste vazio moderno. Poderiamos naão estar em tamanha
ansiedade , em tamanha dor.
O livro The Affective Turn (2007) reflete pelo seu titulo a atual consciência da
centralidade da emoção como cultura. Apresentado pelo comunista Michel Hardt, é,
de qualquer forma, muito mais um exemplo do paradigma dominante do que uma
correção util. O comprometimento esquerdista com o progresso industrial é uma
parte importante do ataque violento contra a natureza intima. É um problema, não
uma solução.
Personificamos uma continua historia de amor e sofrimento, levando o testemunho
do que tem nos movimentado. O amor, como Kierkegaard enfatizou, é a base de
todo o significado na vida , como a conhecemos. Temos amor e cuidados antes de
aprendermos a formular qualquer coisa em linguagem. Como Martin Amis colocou
(The Times, 11/6/06), "O amor vem a ser a unica parte de nos que é solida,
enquanto o mundo vira de cabeça pra baixo e a tela se apaga."
Mas a falencia do advento do amor nas sociedades contemporâneas é tão obvio
quanto é doloroso, como foi recontado variadamente nas novelas de Michael
Houllebecq, por exemplo.
O anarco-novelista Tom Robbins tem enfatizado a questão de "como você faz o
amor permanecer?" Devemos concordar com o Eclesiastico (6:16) de que "um
amigo fiel é um remédio de vida" , mas onde estão os amigos? O acentuado
declinio da amizade nos EUA nas decadas recentes está bem documentada (por
exemplo, McPherson, Smith - Lovin and Brashears, American Sociological Review,
Junho 2006).
E é precisamente aqui que a teoria radical falha, ou falha em apresentar. Por que é
o "desejo" ( ou mais alienadamente ainda, a "sedução") que é o foco , e não o
amor?
Como Bell Hooks descreveu, "quando converso sobre amor com minha geração,
percebo que isto deixa todos assustados" Ainda que exista tal necessidade neste
deserto do espirito: nossa cultura de desamor acumulado.
O oposto de amor não é a raiva, e sim , a indiferença, carimbo oficial do cinismo
"descolado" posmoderno. Até aqui, tudo tem se ajoelhado diante da existência
producionista na drenagem tecno-cultural. Entretanto, precisamos convocar a
profundidade do relacionamento contra a superficialidade dominante, no qual tudo é
tão inconstante e descartavel.
Uma caracteristica chave é o amor potencial irrealizado da atualidade afetiva, em
nós mesmos e nos outros.
Existem obviamente potenciais "becos sem saidas" e ciladas no caminho. Por
exemplo, a arrogancia sexista que muitas vezes acomoda o amor romântico numa
cultura definidamente masculina-patriarcal. Ou a frequente e mundial negação do
aspecto do amor religioso, e a tendência em retrair a autêntica individualidade em
favor de uma identificação devoradora que nega e nâo aceita os outros.
Se emoção é um comportamento, o amor é certamente uma ação, assim como um
processo mental basico.
O amor é uma chave para o crescimento e fortalecimento emocional que pode nos
levar a uma grande comunhão com o mundo. O amor redime e da significado,
enfatizando a graça e a dádiva. A dádiva como uma oposição a atualidade
impiedosa.
Luce Irigaray expressa habilmente: " A dádiva não tem objetivos, propósitos - a
dadiva é doar. Antes de qualquer divisão entre aquele que doa e o que recebe.
Antes de qualquer identidade que separa o doador do que recebe. Mesmo antes da
propria dádiva."
Falar daquilo que pode ser doado pode nos lembrar o que nos tem sido tirado. Na
decada de 1950 Laurens van der Post encontrou um povo que podia carregar tudo
o que tinham em uma mão. Ele se referiu a "maravilhosa risada dos Bushman, que
sai do centro do ventre, um riso que não se ouve nunca entre civilizados."
Que proeza, a extinção do prazer de estar vivo na Terra. O objetivo psicanalitico de
Freud foi transformar a miseria neurotica em infelicidade "normal"; E o objetivo de
Lacan é que o analista aprenda a ser um infeliz como todo mundo.
É impressionante como é extremamente raro a menção de termos como sofrimento,
angustia ou tristeza na literatura da psicologia. Tais questões são claremente de
nenhum interesse teórico, meramente sintomas a serem classificados sob
descrições "menos emocionais". Simone weil visitou fabricas para entender o
sofrimento. As fabricas permanecem, a miséria está agora mais generalizada numa
sociedade cada vez mais sintética e deslocada.
Elaine Scarry em seu livro O Corpo e a Dor (1985) viu a tortura como "uma
miniaturização do mundo, da civilização." Um outro comentário sobre o estado da
sociedade que contém a cada dia mais desastres, ou até mesmos atrocidades
diárias. A Observação de Chellis Glendinning se aplica: traumas pessoais
comumente refletem o trauma da propria civilização em si.
Nos Estados Unidos é um fato que as doenças mentais/emocionais são os
principais problemas de saúde. E como Melinda Davis tem observado "A
ansiedade é a peste negra de nossos dias".
Um ótimo exercício, como eu vejo, é colocar toda as políticas em termos de saúde,
por exemplo, o que em nossa vida social é saudavel ou não-saudavel? Não é afinal
de contas a linha central de tudo?
O cenario geral é bem conhecido. Ansiedade e estresse debilitam o sistema
imunologico; 50 por cento das pessoas que possuem uma condição de ansiedade
também sofrem de depressão profunda. O surto de ansiedade ocorre contra o
cenario de um aumento da depressão entre todas os países industrializados.
De forma interessante, R.C. Solomon, encherga a depressão como "uma maneira
de deslocar a si mesmo dos valores pré-estabelecidos de nosso mundo."
No começo de Maio de 2008, diversas notícias vieram a tona sobre a alta
incidência de dores fisicas crônicas: ao menos 30 por cento da população
americana esta angustiada. E assim, dando continuidade, do crescente número de
incidentes com armas de fogo e índices de obesidade, agora crianças sofrem de
diabetes e doenças do coração; crianças em mudança de comportamento devido a
drogas infantis, o enorme crescimento de asma, autismo e alergias; Pais matandos
seus filhos; milhões "encantados" pelo viagra; dezenas de milhares de pessoas
dependentes de remédios para dormir, etc. etc. O cenario total é cada vez mais
patológico e assustador.
Não é surpresa que encontremos toneladas de livros de auto -ajuda vendidos, uma
intensa preocupação com o bem estar psicológico, e um infinito espetáculo do
sofrimento emocional via televisão e internet. Observe a sequência das revistas
americanas mais vendidas: Life, people, Us e Self. A redução da perspectiva em
uma sociedade individualista é obvia.
O livro de Cristopher Lasc , Cultura do Narcisismo (1979) citou: " uma sensação de
vazio interior, de raiva infinitamente reprimida". Escrevendo em 2008, Patricia
Parson concluiu que atualmente vivemos "numa condição muito mais fria que o
narcisismo" (Uma Breve história da Ansiedade).
Como sempre a acomodada sensibilidade do posmodernismo proclama o fim de
um "self" central, em favor de uma multilpicidade de papéis alternados a serem
encenados. Com os laços sociais atrofiados, existe algo central? Dispersados,
assim como o contato humano, desaparece o contato com a natureza, sentimos
medo de estarmos sozinhos com nós mesmos. Um modo de vida de distração
reprime memórias de sofrimento e a espera de um afeto. O que é o Progresso, ou
em outras palavras Modernidade? "É a enorme quantidade de resíduos químicos
potencialmente letais em nossas células. É estar sentado em frente a uma tela de
televisão ou de um computador num dia lindo. É fazer compras quando se esta
deprimido. É o sentimento de que algo esta sendo perdido." (Kevin Tucker, O Que é
Totalidade?") Provavelmente é uma surpresa que Descartes, progenitor da
alienação moderna, identificou o maravilhamento ou admiração como a primeira
das seis paixões humanas primitivas, no livro As Paixões da Alma (1649).
Onde está nossa capacidade de uma admiração genuína numa sociedade
desencantadora?
Posso dizer a vocês que eu fico emocionado pelo canto perserverante dos grilos,
suas fortes vozes de vida assim que o verão se encerra no Noroeste Pacifico. É
sempre um prazer especial ouvir a migração dos gansos logo acima, seus gritos
soam para mim como cães que latem suavemente logo acima. Não existe uma
consciência que é separada de algo que se experimenta. O que acontece então
quando tudo é experimentado de forma massiva, em produtos, imagens?
A diminuição do afeto , como Jameson colocou, é a diminuição de tudo aquilo que é
vivo também. Podemos realmente viver uma vida sem sentido (tecnificada, sem
encanto, e indireta)?O que é vivo e imadiato não existe numa tela.
Sabemos em qual direção a saude está. Freud escreveu para Wilhelm Fliess, "
Felicidade é um anseio pré-historico adiado. Isto é o porque que a riqueza fornece
tão pouca felicidade" (janeiro, 1898).
A simplicidade contém tudo e na simplicidade tudo é presente. Albert Camus
acertou bem com esta nota: " Eu cresci com o mar e a pobreza para mim era
luxuosa; então eu perdi o mar e percebi toda a luxuria cinza e a pobreza intolerável."
Tradução daninha
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::: Erva Daninha - ervadaninha@riseup.net -12:52 AM
Segunda-feira, Junho 15, 2009 :::
NÃO EXISTEM CATÁSTROFES NATURAIS
(Baseado em um texto escrito por anônimos e anti-autoritários na época em que uma grande inundação acometeu a Itália)
Mais de vinte feridos, certa de dez desaparecidos, 40 mil evacuados. E centenas de milhões de dolares em prejuízos. Como se não tivessem sido gotas de chuva, mas bombas caindo sobre suas cabeças. Como se não tivesse sido uma inundação, mas um guerra, devastando suas casas. De fato isso foi. Mas o inimigo que atingiu tão severamente não foi o rio ou a montanha. Essas não são, na verdade, armas para uma vingança de uma natureza que estamos acostumados a pensar como hostil. A guerra que tem sido travada por séculos agora não é entre a humanidade e o meio ambiente natural, como tantos gostaríam que acreditássemos para garantir nossa obediência. Nosso inimigo é nossa própria atividade. Essa é a guerra. Esta civilização é a guerra. Natureza é simplesmente seu principal campo de batalha.Nós causamos essas poderosas tempestados ao transformarmos o clima atmosférico com nossa atividade industrial. Nossa atividade tem erodido os leitos dos rios, enchendo-os de lixo e deflorestando suas margens.Temos feito pontes desabarem contruindo-as como materiais defeituosos escolhidos para vencer o contrato. Temos devastado vilas inteiras contruindo casas em áreas de risco. Nós temos criado chacais que enchergam lucro em qualquer situação. Nós temos sido negligentes em não tomar medidas preventivas contra esses eventos, estando preocupados apenas em abrir novos estádios esportivos, shopping centers, linhas de metrô e ferrovias.
E como nós somos os responsáveis? Nós permitimos que tudo isso tenha acontecido repedidamente, delegando as decisões que afetam nossas vidas à outras pessoas. E agora, após devastar o planeta inteiro para nos mover mais rápido, comer mais rápido, trabalhar mais rápido, fazer dinheiro mais rápido, assistir TV mais rápido e "viver" mais rápido, nós ainda nos atrevemos a nos queixar quando descobrimos que nós também morremos mais rápido?
Não existem catástrofes naturais, apenas catástrofes sociais. Se nós não quiesermos continuar a sermos vítimas de imprevisíveis terremotos, inundações excepcionais, vírus desconhecidos ou qualquer outra coisa, nossa única chance é agir contra nosso verdadeiro inimigo: nosso estilo de vida, nossos valores, nossos habitos, nossa cultura, nossa indiferença. Não é contra a natureza que nós precisamos urgentemente declarar guerra, mas contra a nossa sociedade e todas as suas instituições. Se nós não estivermos preparados para inventar uma existência diferente e lutar por realizá-la, estaremos nos preparando para morrer nessa existência que outros escolheram e impuseram. E morrer em silêncio, assim como sempre vivemos.
Tradução: Renato
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::: Erva Daninha - ervadaninha@riseup.net -1:32 PM